Designers brasilienses afirmam sua identidade e conquistam espaço em palcos nacionais e internacionais
Brasília sempre foi um berço de estética, luz e formas marcantes. Hoje, essa herança inspira uma nova geração de designers que transformam a identidade regional em linguagem contemporânea. Suas criações, que vão de móveis com curvas orgânicas ao rigor do brutalismo, misturam saber artesanal e técnica refinada, revelando a pluralidade cultural da capital.
Esse movimento criativo tem ultrapassado fronteiras e levado o design brasiliense a feiras e exposições de grande relevância no Brasil e no exterior, como São Paulo e Milão. Peças assinadas por talentos locais chamam atenção justamente por unir raízes regionais à sofisticação e à inovação, revelando que Brasília pode dialogar de igual para igual com grandes centros de design mundial.
Entre os nomes de destaque está Danilo Vale (@danilovale), designer de mobiliário com formação em Desenho Industrial, cuja obra reflete sensibilidade e propósito. Com passagem por mostras em Brasília, São Paulo, Nova Iorque, Paris e Milão, Vale tem levado o design brasiliense também a cenários internacionais. Uma de suas criações mais emblemática, o Espelho Pelle, é feita a partir do reaproveitamento de retalhos de couro de outros móveis produzidos em seu estúdio, e transcende a função utilitária: é poesia materializada. Mais do que superfície, ele se apresenta como pele, linguagem, memória e tempo. Cada marca e cada relevo preservados revelam a história da matéria reaproveitada, que renasce em novas formas sem ocultar suas cicatrizes. Vale celebra a imperfeição como singularidade, transformando o espelho em corpo sensível, capaz de ressignificar o passado e projetar um futuro em que estética, sustentabilidade e emoção se entrelaçam.

Além de Danilo Vale, outros designers brasilienses, vindos de diferentes formações, como arquitetura, artesanato e design, e em variados estágios de projeção no mercado, têm contribuído para a expansão e visibilidade do design da capital. Essa diversidade de trajetórias não só enriquece o cenário criativo, mas também inspira e encoraja novos profissionais a se arriscarem e explorarem caminhos próprios.
Entre eles destaca-se Lucas Caramés (@studio.lucascarames), arquiteto de formação e designer por vocação, com um olhar que mistura Brasília, o cerrado e suas raízes nordestinas, somadas à herança espanhola da família. Cada peça de seu repertório, como a Coleção Poty e a coleção Salvá, em homenagem a Salvador, dialoga com artesanato local, materiais naturais e sensibilidade estética, revelando memória, identidade e poesia no cotidiano. Seu trabalho, já exposto em Brasília, São Paulo, Milão e Nova Iorque, traduz um regionalismo que se encontra com monumentalidade e inovação, criando uma linguagem própria e contemporânea.
Além de sua produção autoral, Caramés atua como presidente da ADEPRO (Associação dos Designers de Produto do Distrito Federal), contribuindo para fortalecer a cena local. Participou da organização da Semana de Design de Brasília (BDW) e é idealizador do projeto Muta, realizado em parceria com Luciana Canalli, que transforma espaços urbanos abandonados, como o Teatro Nacional, em intervenções artísticas e de design. O projeto envolve a comunidade, aproxima as pessoas do ambiente urbano e ressignifica a memória da cidade, promovendo experiências sensoriais poéticas e inesperadas.
Se alguns designers brilham em trajetórias individuais, outros encontram força e potência na colaboração, como é o caso da Azo Collab (@azocollab), formada por Tati Lima, Thaís Borges, Tiago Gresele e Victor Grimaldi. Suas criações nascem do lema “design que enaltece nossas raízes”, e a diversidade de origens de cada integrante gera uma linguagem plural, capaz de traduzir a riqueza cultural brasileira em formas contemporâneas.
Em maio de 2025, o grupo apresentou a Poltrona Ensolar, peça que celebra o instante em que o sol repousa no horizonte: um convite à pausa, à contemplação e ao repouso. Mais que mobiliário, ela se revela como poesia em gesto e matéria.
A Azo Collab já deixou sua marca em mostras importantes no Brasil e no exterior, de São Paulo a Brasília, de Porto Alegre e Gramado a Milão, com peças que encantam os olhos e dialogam com o cotidiano e o mercado. Essa trajetória evidencia o poder do trabalho coletivo em projetar Brasília e o Brasil no cenário global do design.

No mesmo movimento de enraizar e expandir, o brasiliense, Wilson Romão (@wilsonromao.arq) é arquiteto e urbanista, com especialização em design de mobiliário pelo Istituto Europeo di Design. Desde os primeiros anos de formação acadêmica, já sabia que seguiria o caminho das superfícies e do mobiliário, paixão que se confirmou com suas primeiras criações expostas em mostras nacionais e internacionais. Inspirado pelo ambiente modernista em que nasceu e cresceu, Romão traduz a geometria, a assimetria e as linhas retas de Brasília em peças exclusivas e atemporais, que interligam a linguagem arquitetônica ao universo criativo do design autoral.
Seus painéis de azulejos e móveis vão além da função utilitária: são narrativas que dialogam com espaço, memória e cultura, transformando ambientes em experiências sensoriais únicas. Com trabalhos apresentados em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Milão, além de integrar o acervo permanente do Museu de Arte de Brasília, Romão constrói pontes entre tradição e inovação, entre técnica e poesia. Suas criações reafirmam como o design autoral da capital pode ser, ao mesmo tempo, funcional e universal, sem deixar de refletir o sentimento de pertencimento e valorização regional.

Outro nome que merece atenção é Daniel Negreiros, que, embora já produza mobiliário há algum tempo, começou a participar das mostras apenas este ano. Suas peças rapidamente conquistaram o público e estão sendo comercializadas no cenário brasiliense, mostrando que talento e consistência florescem quando aliados à autenticidade e linguagem própria. Como arquiteto e designer, Negreiros transforma resíduos de obra que seriam descartados, em mobiliário único. Cada peça carrega vestígios de sua história anterior, como se cada marca e cada fragmento renascessem em formas novas, tornando a sustentabilidade parte da poesia do design.

Além de se destacarem individualmente, muitos desses designers encontram na iniciativa coletiva uma oportunidade de reforçar a identidade do design brasiliense. Um exemplo dessa valorização é o Projeto Casa Brasília, iniciativa da ADEPRO (Associação dos Designers de Produto do Distrito Federal) que celebra o design autoral da capital. Entre os profissionais que já participaram deste projeto, além dos já citados individualmente nesta matéria, estão: Samuel Lamas (@samuel_lamas), Daniel Jacaré (@danieljacare), Moou (@moou_bsb), Estudio Mutum (@estudiomutum), Casa de Abelha (@casa.da.abelha), Hudson Castro Arquitetura (@hudsoncastroarquitetura), Studio Ismael Ricardo (studio.ismaelricardo), Jader Rodrigues (@jaderrodrigues), criadores que respiram e traduzem o espírito de Brasília.
Recentemente, o Projeto Casa Brasília apresentou, na DW Brasília, no Casapark, a exposição Materialidade em Território Cerratense, que se destacou pela singularidade e profundidade de suas criações. A exposição permanece aberta ao público até 30 de setembro de 2025, e representa um convite para vivenciar, de perto, a força e a sensibilidade do design brasiliense.
Mais que uma tendência, trata-se de um manifesto silencioso: ao mesmo tempo em que afirmam sua identidade, esses criadores criam pontes entre tradição e contemporaneidade, entre memória e futuro, provando que Brasília é solo fértil para um design que é, ao mesmo tempo, enraizado e universal.
















