Na Cerrado Cultural, o espaço volta a ser protagonista. O branco das paredes, o silêncio que antecede o olhar e o vazio que acolhe matéria e intuição convidam o visitante a habitar uma zona de encontro entre o real e o sensível.
É nesse território de travessias que o espaço apresenta suas novas mostras simultâneas: Simples e Composto, de Túlio Pinto, e Encantar a Passagem, de Manuela Costa Silva. Dois universos distintos se encontram em um mesmo ponto de equilíbrio, entre peso e leveza, entre o visível e o intangível, entre o rigor construtivo e o encantamento do sonho. Duas exposições, um mesmo eixo poético: o diálogo entre força e leveza, entre matéria e encantamento.
O espaço que respira junto com a arte
O ambiente da Cerrado Cultural tem algo de vivo. Ele respira junto com as obras. A arquitetura, o silêncio e a luz natural criam uma atmosfera de pausa, em que o olhar desacelera e o corpo se ajusta ao tempo da arte.
Cada exposição transforma o espaço e, de alguma forma, transforma também quem o percorre. Há um diálogo entre forma, matéria e emoção que desperta no visitante a consciência de estar presente, não apenas vendo, mas sentindo o ambiente.
É nesse encontro entre arquitetura e percepção que a Cerrado se consolida como um lugar de experiências, onde a arte acontece em movimento e o visitante é envolvido pelo espaço e pelas obras.

O equilíbrio como linguagem
Em “Simples e Composto”, Túlio Pinto conduz o olhar para o essencial. Suas esculturas de aço corten, vidro e pedra criam um campo de tensão e cumplicidade. Entre força e fragilidade, o artista constrói um diálogo sensível com os materiais, uma escrita no espaço em que o peso parece se sustentar no ar, o metal encontra o vidro e o equilíbrio se revela como gesto poético.
Há uma calma quase meditativa em sua obra. A precisão técnica se une à leveza do silêncio. Cada escultura pede da arquitetura o mesmo cuidado que exige do corpo: respiro, luz e presença plena. Assim, o artista convida o visitante a desacelerar e perceber o espaço não só com os olhos, mas também com o corpo.
O diálogo entre materialidade e espaço desperta respostas sensoriais. O olhar acompanha o risco, o corpo sente o peso. Nesse instante, a arte se torna experiência viva.

Entre mundos e memórias
Em Encantar a Passagem, Manuela Costa Silva mergulha em outra travessia: a do sonho, da ancestralidade e da morte entendida como nascimento. Suas pinturas e instalações evocam o limiar entre sono e despertar, entre vida e encantamento.
A artista constrói pontes simbólicas entre a cama e o barco, entre o corpo e o espírito, entre a lembrança e o esquecimento. O espaço expositivo se transforma em um ambiente de sonho, onde as sensações ganham corpo e tempo.
Manuela nos lembra que sonhar também é habitar um espaço, simbólico e real, que pode ser lido como uma arquitetura do inconsciente. Formas, cores e memórias constroem sentidos invisíveis, numa travessia emocional e espiritual que convida à pausa e ao encantamento.

O espaço como travessia
Nas duas exposições, há um mesmo gesto: o desejo de atravessar. Seja pela densidade escultural de Túlio Pinto ou pela delicadeza de Manuela Costa Silva, o visitante é conduzido a um estado de percepção expandida.
O espaço da Cerrado Cultural se torna mediador dessas passagens, entre corpo e obra, entre matéria e símbolo. A experiência é tanto física quanto emocional: sentimos o peso e a leveza, o rigor e o sonho, a racionalidade e o mistério coexistindo num mesmo ambiente
Ao final, fica a sensação de que a arte, assim como a boa arquitetura, é sempre sobre o que acontece entre as coisas: o ar que atravessa a escultura, o silêncio que envolve a pintura, o instante em que o olhar se transforma em presença.

Para a diretora da Cerrado Cultural, Luiza Vaz, as exposições de Manuela Costa Silva e Túlio Pinto convidam o público ao contato com diferentes linguagens artísticas e reforçam um dos principais objetivos do espaço: apresentar, tanto em Brasília quanto em Goiânia, o melhor da arte contemporânea produzida no Brasil, sem se limitar a temáticas ou técnicas específicas. Segundo ela, contar com a presença de um grande público na abertura das mostras demonstra o interesse crescente pelas artes visuais e incentiva a continuidade de uma programação cada vez mais intensa na Cerrado Cultural.
As mostras Simples e Composto, de Túlio Pinto (curadoria de Divino Sobral), e Encantar a Passagem, de Manuela Costa Silva (curadoria de Paula Borghi), ficam em cartaz na Cerrado Cultural, SHIS QI 05 Chácara 10, Lago Sul, Brasília, de 18 de outubro a 22 de novembro.
Fotos: César Rebouças













