A participação brasileira na 61ª Bienal de Veneza já entra para a história antes mesmo da abertura oficial ao público. Pela primeira vez desde a criação do pavilhão nacional, em 1964, o Brasil será representado por uma composição inteiramente feminina: as artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão, sob curadoria de Diane Lima. Mais do que um marco simbólico, a presença do trio redefine o lugar da arte brasileira no cenário internacional ao colocar em evidência narrativas historicamente atravessadas por raça, memória, colonialismo e pertencimento. “Ter uma composição com três mulheres é algo pioneiro. Assim como ter uma primeira mulher negra curadora e uma primeira artista negra”, afirmou Diane Lima à Vogue Brasil.

A curadora baiana revelou que o ponto de partida para a construção do projeto surgiu a partir do texto curatorial da edição assinado por Koyo Kouoh, primeira africana a comandar a Bienal de Veneza, que faleceu no ano passado. “Ela fala: ‘Relaxe os ombros, respire profundamente, inale, exale e feche os seus olhos’. Eu fiz esse exercício e falei: ‘Quero entrar nesta frequência’”, relembra Diane. A partir dessa provocação sensível, surgiram os nomes de Rosana Paulino e Adriana Varejão, artistas que, há décadas, investigam as marcas deixadas pela violência colonial e racial na construção da identidade brasileira. “São duas artistas que há mais de 30 anos vêm promovendo um debate sobre as feridas e as violências coloniais”, destacou.

Para Rosana Paulino, a ocupação desse espaço representa uma mudança histórica na forma como o Brasil escolhe se apresentar ao mundo. “Ocupar o pavilhão brasileiro neste momento é extremamente importante. Três mulheres, isso nunca aconteceu na história do pavilhão brasileiro. Dentre essas três mulheres, duas negras, então, muito menos”, afirmou a artista. A fala reforça o peso político e simbólico da representação brasileira nesta edição, especialmente diante de uma história artística frequentemente marcada por apagamentos. “Isso coloca ali as questões de um Brasil que não foi visto, que não foi pensado, um país que não se investigou enquanto historicidade”, completou.

Entre tensões, contrastes e aproximações poéticas, a união entre Rosana Paulino, Adriana Varejão e Diane Lima propõe uma leitura contemporânea e profundamente crítica do Brasil. “É uma composição que em si revela as nossas posições, não somente numa dimensão de gênero, mas também de classe, de raça”, defendeu Diane. O encontro das três vozes no principal evento de arte do mundo não apenas celebra trajetórias individuais consolidadas, mas inaugura um novo capítulo para a arte brasileira — mais plural, consciente e alinhado às urgências do presente.















