A 61ª edição da Bienal de Veneza reafirma o Brasil como uma das presenças mais relevantes da arte contemporânea internacional. Em meio a uma edição marcada por tensões políticas, debates institucionais e pela morte da curadora-geral Koyo Kouoh, primeira mulher africana a assumir a direção conceitual da mostra principal, artistas brasileiros ocupam diferentes espaços da cidade italiana com obras que abordam ancestralidade, espiritualidade, memória racial e identidade cultural.
Na exposição central In Minor Keys, três artistas brasileiros integram a seleção internacional: Ayrson Heráclito, Dan Lie e Eustáquio Neves. Heráclito apresenta a série “Juntó”, no Arsenale, reunindo esculturas e desenhos que investigam os vínculos entre os orixás, o candomblé e as marcas deixadas pela escravidão no Brasil. Já Dan Lie desenvolve instalações orgânicas que incorporam processos de decomposição e regeneração para refletir sobre existência, espiritualidade e relações humanas com a natureza. Eustáquio Neves, por sua vez, utiliza a fotografia como instrumento de reconstrução da memória negra brasileira, criando imagens que confrontam apagamentos históricos e reconstroem narrativas ancestrais.

Além da mostra principal, o Brasil também ocupa espaços paralelos de destaque em Veneza. Paulo Nazareth apresenta a individual Algebra na Punta della Dogana, instituição ligada à Pinault Collection, em uma exposição que amplia discussões sobre deslocamento, violência histórica e fronteiras simbólicas. Com curadoria de Fernanda Brenner, a mostra consolida a presença do artista em um dos circuitos mais importantes da arte contemporânea mundial.

No Pavilhão do Brasil, a exposição Comigo ninguém pode, com curadoria de Diane Lima, reúne Rosana Paulino e Adriana Varejão em um diálogo potente sobre memória, colonialismo, corpo e reparação histórica. Entre diferentes linguagens e suportes, as artistas constroem uma narrativa sensível e crítica sobre as feridas que atravessam a formação do país. Em uma edição especialmente atravessada por debates políticos e identitários, a presença brasileira em Veneza reforça a potência da arte como espaço de elaboração histórica e disputa de imaginários.














