Uma das óperas cômicas de Gaetano Donizetti (1797–1848), Rita, também conhecida como Dois Homens e uma Mulher, ganha uma nova leitura nos palcos de Brasília. Com apresentações nos dias 13, 14 e 15 de novembro, no Teatro Brasília Shopping, a montagem adapta a obra de 1841 para o português e propõe um olhar contemporâneo sobre temas como violência doméstica, relações de poder e emancipação feminina. A versão é assinada pela soprano Janette Dornellas, responsável também pela produção e pelos figurinos, e preserva o humor característico do compositor italiano.
A trama se passa em uma hospedaria administrada por Rita, que vive com seu segundo marido, Beppe. Depois de sofrer com o comportamento violento do primeiro companheiro, Gasparo, dado como morto após um naufrágio, ela passa a reproduzir com Beppe uma relação marcada por agressões e imposições. A dinâmica do casal muda quando Gasparo reaparece em busca da certidão de óbito de Rita, documento necessário para que ele possa se casar novamente no Canadá, onde vive desde que sobreviveu ao acidente. Cansado dos maus-tratos, Beppe enxerga na chegada do antigo marido uma oportunidade de se libertar e propõe uma disputa: quem perder ficará com Rita. O curioso é que os dois homens tentam perder o jogo. Entre equívocos e reviravoltas, a história chega a um desfecho em que Rita reafirma seus sentimentos por Beppe, enquanto Gasparo segue em direção a um novo casamento.
Trazer uma obra do século XIX para o presente exigiu rever situações e expressões que poderiam naturalizar a violência sob o pretexto da comicidade. Na adaptação, Janette Dornellas substituiu passagens consideradas inadequadas à sensibilidade contemporânea por diálogos e atitudes mais brandos, sem comprometer o ritmo e o humor da narrativa. A diretora cênica e cenógrafa Élia Cavalcante também construiu a encenação a partir de uma perspectiva feminista, investigando os mecanismos de poder e os ciclos de violência nas relações afetivas. A quebra da quarta parede, com personagens que se dirigem diretamente à plateia, aproxima a história do público e reforça a proposta de reflexão. “Eu não queria destruir a comédia. O Donizetti era um gênio da farsa, e o humor continua todo ali, vivo, ágil e pulsante. O desafio foi entender que o que está em jogo é uma disputa visceral por poder nas relações e como esse poder se conecta diretamente com o ciclo do trauma”, explica Élia. A diretora acrescenta que a personagem reproduz com o segundo marido a lógica de violência vivida com o primeiro, numa tentativa de não voltar a ser dominada. “Trazer essa história para 2026 é mostrar como a gente ainda se perde nos mesmos ciclos. É um riso que busca ser consciente e nos faz perguntar: até quando vamos achar normal o absurdo só porque ele vem embalado numa melodia bonita?”, questiona.
Janette Dornellas também destaca o cuidado necessário para abordar a violência sem transformá-la em motivo de riso. “A diretora de cena conseguiu subverter essa premissa, mostrando a força dessa mulher, a Rita, que não se subjuga e também se impõe. Ao final, fica claro que as relações humanas verdadeiras só podem ser construídas através do amor e do respeito”, afirma. No elenco, a mezzo-soprano Carol Araujo interpreta Rita, o tenor Daniel Menezes dá vida a Beppe e o baixo Diego Silveira assume o papel de Gasparo. Os três artistas têm trajetória no cenário musical de Brasília, com participações em óperas, concertos e recitais. A direção musical e a regência são do maestro Deyvison Miranda, à frente de uma orquestra formada por cinco músicos. Produzido pelo Instituto Cultural Janette Dornellas, o espetáculo conta com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal. Todas as sessões terão legendas em português. A programação inclui ainda um ensaio geral gratuito e acessível, no dia 12 de novembro, destinado ao público com deficiência visual, auditiva e de mobilidade, com audiodescrição e intérprete de Libras.
Serviço | Ópera Rita, de Gaetano Donizetti
Datas e horários: 13 de novembro, às 20h; 14 e 15 de novembro, às 19h30
Local: Teatro Brasília Shopping
Classificação indicativa: 14 anos














