A moda brasileira mostrou em Milão que sustentabilidade, identidade cultural e sofisticação podem caminhar juntas. Realizado durante a semana de moda, o Brazilian Sustainable Fashion reuniu dez marcas nacionais lideradas por mulheres no I Chiostri di San Barnaba, em uma iniciativa do projeto TexBrasil, desenvolvido pela Abit em parceria com a ApexBrasil, com apoio da Abrimos. Ao longo de três dias, o evento apresentou coleções que colocam a artesania no centro do debate sobre o novo luxo, valorizando técnicas tradicionais, inovação e produção consciente.
Com o conceito Craftsmanship and Culture: The New Luxury, a iniciativa buscou ampliar a presença internacional de marcas brasileiras com práticas sustentáveis comprovadas. A seleção contemplou empresas de quatro regiões do país, com critérios que consideraram não apenas os produtos, mas também a governança e o impacto social. “Estamos aqui como um evento pioneiro, rompendo barreiras, quebrando tabus. Estamos trazendo moda sustentável atrelada ao design. A moda sustentável é, antes de tudo, luxo”, afirma Francisca Vieira, fundadora da Natural Cotton Color e presidente da Abrimos. Para Maria Paula Velloso, diretora de Negócios da ApexBrasil, o objetivo é fortalecer a imagem do país como produtor de moda autoral de qualidade, com atributos sustentáveis e diferenciais competitivos.
A discussão ganha relevância diante das novas exigências do mercado europeu, que restringem o uso de termos como “sustentável”, “verde” e “eco-friendly” sem comprovação. A perspectiva de passaportes digitais para roupas, com informações sobre composição, origem e destino das peças, também reforça a necessidade de transparência na cadeia produtiva. “A sustentabilidade, para além da narrativa, é também um atributo de competitividade”, destaca Lilian Kaddissi, superintendente de Marketing e Negócios da Abit. Nesse cenário, as marcas que já trabalham com processos rastreáveis, reaproveitamento de materiais e relações produtivas responsáveis encontram oportunidades para se posicionar no segmento premium internacional.
Na passarela, 110 looks traduziram a diversidade de referências e técnicas brasileiras. A Natural Cotton Color apresentou algodão naturalmente colorido e seda tingida com folhas de cajueiro; a alagoana Alina Amaral levou bordados e rendas artesanais desenvolvidos com o trabalho de mais de 500 mulheres capacitadas em uma comunidade de Maceió; e a Villa Dharma explorou a pluralidade religiosa brasileira por meio de trançados de junco e bordados sobre juta. Da Amazônia vieram as criações de Camila Machado, inspiradas em experiências na floresta e em tingimentos naturais, as pesquisas de Ludimila Heringer com a folha da mandioca-brava e os acessórios de Val Valadares, que incorporam látex de comunidades do Marajó e câmaras de pneu recicladas.
O desfile também apresentou diferentes interpretações do vestir contemporâneo. A mineira Celeste combinou referências dos biomas brasileiros, palha de buriti e crochê artesanal; a Lybethras ampliou seu repertório de moda praia para o resortwear, com tecidos de poliamida biodegradável e detalhes feitos a partir de retalhos de couro; a Ana de Jour transformou sobras de seda em macramês e acessórios florais; e a Proposta Verde reaproveitou passadores de jeans, botões e madeira de demolição em novas composições. Além das coleções, o evento promoveu um showroom nos dias 23 e 24 de setembro, com reuniões comerciais previamente agendadas com potenciais compradores de nove países europeus. A estratégia privilegia boutiques e lojas independentes interessadas em peças autorais, produção limitada e processos artesanais. Para as marcas e as comunidades representadas, a passagem por Milão reforçou o potencial da moda brasileira de transformar saberes tradicionais em valor cultural e comercial.
A iniciativa também promoveu encontros com compradores internacionais e reforçou o espaço da criação autoral brasileira no mercado de luxo. Confira os destaques da participação nacional em Milão:





















