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Home Michelle Nogueira

Maximalismo ou identidade?

Quando a casa volta a contar histórias

por Redação
06/07/2026
0
Maximalismo ou identidade?
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Por Michelle Nogueira

Por décadas, o design oscilou entre excessos e reduções.

Depois de anos dominados pelo minimalismo, pelas paletas neutras e pelos ambientes
cuidadosamente editados para parecerem universais, surge uma pergunta que movimenta
arquitetos, designers e amantes da decoração:

Estamos vivendo o retorno do maximalismo?

Ou estamos assistindo ao resgate de algo mais profundo: casas que refletem a identidade de quem as habita?

Penso que o que estamos vendo não é necessariamente o retorno do maximalismo, mas a rejeição da neutralidade emocional.

Durante anos, muitas casas foram concebidas para parecer impecáveis, universais e atemporais. O resultado, em alguns casos, foram ambientes visualmente elegantes, mas emocionalmente silenciosos.

Sob a ótica da neuroarquitetura, isso é extremamente relevante. O cérebro estabelece relações mais profundas com ambientes que despertam emoções, memórias e reconhecimento.

Mais do que uma composição estética, os espaços também funcionam como extensões da nossa história.

Nicolle Belchior: quando a arte se torna extensão da identidade

Ao observar o trabalho da artista Nicolle Belchior, surge uma reflexão interessante sobre o
momento que vivemos. Suas obras não parecem buscar apenas harmonia cromática ou
composição visual. Elas comunicam presença, emoção e individualidade.

Em um período em que muitas residências foram dominadas por paletas neutras e ambientes cuidadosamente editados para atender tendências globais, artistas como Nicolle parecem apontar para outra direção: a valorização da expressão pessoal.

Sob a ótica da neuroarquitetura, isso possui relevância significativa. O cérebro humano responde de maneira mais intensa a estímulos que despertam curiosidade, emoção e identificação. Obras de arte, cores, texturas e elementos visuais capazes de provocar sensações favorecem processos ligados à memória, à criatividade e ao vínculo emocional com os espaços.

Talvez o fenômeno que muitos chamam de retorno do maximalismo seja, na verdade, o retorno da personalidade aos ambientes. Menos preocupação em seguir uma estética universal e mais desejo de habitar espaços que contem histórias, revelem gostos e expressem quem somos.

A arte, nesse contexto, deixa de ocupar apenas as paredes. Ela passa a participar da construção emocional dos lugares.

As formas orgânicas desta fase do trabalho de Nicolle surgiram durante seu processo de tentativa de maternidade. Os círculos podem ser interpretados como símbolos de gestação, potencialidade, vida e transformação. Já os elementos menores e repetitivos evocam movimento, encontro, fertilidade e expectativa.

Quando a experiência pessoal se transforma em linguagem artística, a obra ultrapassa a estética e passa a comunicar vivências humanas universais. Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas se conectem com trabalhos assim: porque reconhecem neles emoções que também fazem parte de suas próprias histórias.

Daniel Negreiros e o design que desperta os sentidos

Enquanto Nicolle parte da emoção, da narrativa pessoal e da expressão artística, o Banco Versati, de Daniel Negreiros, nasce da observação do cotidiano, da experiência sensorial e dos significados que atribuímos aos materiais.

O mais interessante é que, sob a ótica da neuroarquitetura, o Versati dialoga diretamente com a forma como percebemos e experimentamos os espaços.

Se o maximalismo tradicional costuma ser associado ao excesso visual, o trabalho de Daniel aponta para outro caminho: a valorização da experiência.

No Banco Versati, a narrativa não está na quantidade de elementos, mas na profundidade das relações que eles estabelecem entre si.

Veludo e aço inox convivem em uma composição marcada pelos contrastes:

  • Quente e frio
    • Macio e rígido
    • Passado e futuro
    • Acolhimento e precisão

Mais do que escolhas estéticas, esses contrastes ativam percepções sensoriais que o cérebro interpreta continuamente quando interagimos com objetos e ambientes.

Na neuroarquitetura, compreendemos que a experiência espacial não é construída apenas pelo olhar. Ela também acontece através do toque, da temperatura percebida, das texturas, da luz e das associações emocionais que cada material desperta.

O próprio Daniel destaca uma característica comum entre o veludo e o aço inox: ambos transformam sua aparência conforme recebem a luz. Dependendo do ângulo, refletem, absorvem ou revelam novas nuances, criando uma sensação constante de movimento.

Essa dinâmica visual desperta um dos mecanismos mais importantes do cérebro humano: a atenção involuntária. Somos naturalmente atraídos por elementos que apresentam variações,

Profundidade e mudança — características frequentemente encontradas na natureza e que tornam a experiência mais rica e estimulante.

Talvez seja justamente aí que o Versati revele uma das principais transformações do design contemporâneo. Não se trata de acumular elementos.

Trata-se de criar objetos capazes de provocar sensações, despertar curiosidade e enriquecer a experiência cotidiana.

Assim como observamos na arte de Nicolle Belchior, o valor não está no excesso, mas na capacidade de criar conexões genuínas entre pessoas, objetos e ambientes.

Estúdio Rabiola: quando o design se transforma em experiência

O Banco Rabiola talvez seja um dos exemplos mais claros de como memória, cultura e participação podem ser transformadas em design.

Inspirado nas tradicionais fitas do Senhor do Bonfim, elemento profundamente presente no imaginário brasileiro, o banco convida o usuário a participar da obra. Cada fita representa um desejo, uma intenção, um sonho ou uma lembrança.

A peça não termina quando sai do ateliê. Ela continua sendo construída por quem a utiliza.

Mas talvez o aspecto mais interessante do trabalho do Estúdio Rabiola esteja em sua filosofia criativa. Como definem seus próprios criadores, o estúdio é um convite para sair do cotidiano, do externo e do excesso de seriedade que muitas vezes domina a vida adulta, para acessar novamente a imaginação, a sensibilidade e a imensidão do nosso universo interior.

Sob a ótica da neuroarquitetura, essa proposta possui um significado profundo. O cérebro humano não busca apenas funcionalidade. Ele também necessita de estímulos capazes de despertar encantamento, criatividade e expressão emocional. A ludicidade, frequentemente associada à infância, continua sendo uma importante ferramenta de flexibilidade cognitiva e bem-estar ao longo de toda a vida.

Ao incorporar um símbolo cultural tão carregado de significado quanto as fitas do Senhor do Bonfim, o Banco Rabiola também ativa camadas relacionadas à memória coletiva, à ancestralidade e à identidade cultural. Não estamos diante apenas de um objeto de design, mas de um artefato que conecta histórias individuais a referências compartilhadas por uma comunidade.

A transparência do acrílico faz com que as fitas pareçam suspensas no tempo, transformando desejos, lembranças e intenções em parte visível da própria estrutura da peça. O objeto deixa de ser apenas algo que utilizamos e passa a funcionar como um recipiente de narrativas pessoais.

Na neuroarquitetura, sabemos que os ambientes e objetos que mais permanecem na memória raramente são aqueles que apenas admiramos. São aqueles com os quais interagimos, construímos relações e atribuímos significado.

Mais do que um assento, o Banco Rabiola se transforma em um lembrete de que habitar um espaço também é cultivar sonhos, preservar memórias e criar novas histórias.

Talvez por isso objetos como esse permaneçam conosco por tanto tempo: porque não ocupam apenas um lugar no ambiente, mas também na nossa narrativa pessoal.

“O cérebro não cria vínculo com a perfeição, cria vínculo com significado.”

 

Tags: Arquiteturadecoraçãodesign de interioresidentidademaximalismoneuroarquitetura
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